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Aos 45 anos, Adrienne Willis repensa toda a sua vida quando o marido a abandona por uma mulher mais jovem. Com o coração partido e em busca de. Há três anos, Adrienne Willis perdeu as esperanças no amor quando o marido a trocou por uma mulher mais jovem. Tendo que cuidar sozinha dos três filhos. Noites de Tormenta - documento [*.pdf] OO SSoorrrriissoo ddaass a ler romances do Oeste e livros acerca da Segunda Guerra Mundial.

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A Batalha do Apocalipse — Eduardo Spohr. Eu te ordeno! Todos sabem. O fantasma do conformismo a dominava. Você faz ideia de quanto sua cabeça vale na capital? Que vexames! Por favor, saia daí de cima. Eram estimuladas a enxergar seu superficialismo e a cheirar o odor das próprias tolices. Nicholas Sparks mais do autor. Difundiram para o mundo a mensagem que tinham ouvido. E suas visitas àquela corte tinham cessado após a chegada do pior pesadelo de qualquer pessoa. O Juri — John Grisham. Band of Brothers — Stephen E.

Há três anos, Adrienne Willis perdeu as esperanças no amor quando o marido a trocou por uma mulher mais jovem. Tendo que cuidar sozinha dos três filhos. Noites de Tormenta - documento [*.pdf] OO SSoorrrriissoo ddaass a ler romances do Oeste e livros acerca da Segunda Guerra Mundial. CATALOGAÇÃO NA FONTE SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE LIVROS, RJ Sn Sparks, Nicholas Noites de tormenta [recurso. Ofertas · Leia online (PDF) Resenhas para Noites de Tormenta (28). ver mais. Arrasador, como uma noite de tormenta! Mari Siqueira. 4. on 14/12/ Noites de Tormenta é um dos livros mais fofinhos do Nicholas Sparks. Sua escrita. PDF - Noites De Tormenta O título desse livro foi mudado de O Sorriso das Estrelas para Noites de O PDF do primeiro capítulo ainda não está disponível.

Nada mais exaustivo do que administrar encontros e expectativas. Um mau casamento pode ser ótimo para ambas as partes, e o meu foi assim. A Irene abstraiu das tentações e eu também, vivíamos confortavelmente em dois quartos, tudo muito triste e civilizado. Desconfio que foi a adolescência da Rita que tirou a Irene do prumo. Tive que parar de nadar na piscina, eu gostava muito daquela piscina, mas a titular era ela. Eu me descobri sozinho, sem culpa, porque.

Toda mulher é ingênua. Comecei a ficar brocha com a Aurora, a segunda mulher que arrumei depois da Irene. Sofri uns bons anos, até que relaxei.

Adeus, hormônios, adeus, garotas, adeus, silêncio penoso no quarto, adeus, olhos piedosos. Serei franciscano. Fiquei com orgulho deles. Ela queria que eu o convencesse a deixar ela quieta. Abri a porta do quarto, tudo fechado, ele na cama de mau humor. A esclerose fez do meu pai um homem paranoico, ciumento e delirante, que acusava a mulher de ter pulado a cerca com uma lista extensa de homens que conviveram com eles desde o casamento.

Logo ela, que guardou a virgindade e nunca se atreveu a querer ninguém.

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Joguei a pistola no mar. A Irene devia ter casado com ele. Estariam trepando até hoje. Olha a bicicleta! Todo ciclista é assassino, suicida e assassino. Me olho no espelho e vejo a tia Suzel.

Almas gêmeas - eBook, Resumo, Ler Online e PDF - por Nicholas Sparks

Culpa do estrogênio, me explicou o Mattos, que deixa os velhos com cara de velhas e as velhas com cara de velhos. Tia Suzel morreu solteira e virgem, com oitenta e seis anos. Desses, vinte e seis ela passou abanando o bafo quente do Andaraí com a ventarola, repetindo que queria morrer.

Dava vontade de fazer a vontade dela. Uma tarde, Suzel caiu da escada — a queda — e nunca mais rejuntou. Ela morava com a sobrinha num prédio de três andares sem elevador. Hoje, me visita no espelho. Calor sudanês. Fritei muito ovo no paralelepípedo da Penha da minha infância. Desde que eu me conheço por gente que o mundo vai acabar. Guardo uma lembrança embaçada dos efeitos da testosterona.

Nunca fui muito ativo. Eu e o Ribeiro saíamos muito, bebíamos demais, demais. Troquei o dia pela noite, engordei, criei uma barriga dura, sustentada por dois gambitos e um pescoço curto que equilibra a careca lustrosa.

Hoje, estaria preso. Sempre achei que o Ribeiro fosse imortal. Ninguém é. Em dez anos todos fizeram o mesmo. O Neto encarou a Célia até o fim. Eu tenho medo de dar palpite sobre a cor da pele das pessoas. Até Monteiro Lobato, que é o Monteiro Lobato, foi tachado de racista. Ele achava que o casamento conferia status. É racismo? Que seja, dane-se Zumbi. Acho que tem a ver. A Irene ficou com a casa e eu com o carro. Na volta, a gente parava num daqueles motéis e via um filme pornô.

Quando eu conseguia, repetia o feito. Eu ainda gostava de sacanagem naquela época, mesmo brochando. Foram as mulheres que me fizeram perder o interesse. Eu nunca dei trela. Gostava do Neto, do Ciro, do Sílvio e do Ribeiro. Opa, abriu. Esse sinal demora uma eternidade para abrir e dois segundos para fechar. Ainda falta um terço de faixa e essa porcaria fecha? Calcularam com quem esse tempo? Com o Ligeirinho? O que é? Vai passar por cima? Passa, desgraçado, parte o meu joelho ao meio com o seu farol de milha.

Bueiro, calçada alta, fedentina, argentinos. Futebol, o dia inteiro. Adoro mesa-redonda. Parei no videocassete, minto, tenho um DVD que veio de brinde com a TV de quarenta polegadas, mas nunca me entendi com o controle remoto.

Antes, eu alugava um filme ou outro no caminho do consultório do Mattos, mas fecharam a locadora. Tive a sorte de envelhecer fumando. Dane-se a humanidade. Desvio de obra. Como gostam de obra. Como é que esse pobre aguenta? Vai morrer cedo. Eu nunca encarei a morte como uma possibilidade. A morte é uma doença crônica. O Sílvio era magro, elegante e mau.

Muito mau. Ele se suicidou naquele Carnaval. Tem muitos jeitos de o sujeito fazer isso. Mas era só trocar duas frases com o Sílvio para elas gamarem à loucura.

Mulher adora ser maltratada. Isso foi no início. Com trinta e dois, o Sílvio casou com a Norma e a batida acalmou. Para piorar, a sogra do Sílvio foi morar com eles. A casa virou um Muro das Lamentações. Era choramingo, novela à noite e criança enchendo o dia inteiro: banho de criança, purê de criança, brinquedo de criança, meleca de criança, escola de criança, cocô de criança.

Ele perdeu a paciência, enfiou o mais velho num internato em Petrópolis, de onde o menino só saía para dar uma pinta no Natal, botou a sogra para cuidar do menor, se despediu da Norma e se mandou para a garçonnière que mantinha na Glória. O Sílvio era da orgia. Bebemos à partida. Bebemos muito, numa festa no Leme, e tomamos umas bolas, também, que o Sílvio apresentou.

Ele queria ensinar a gente a viver. Quando amanheceu, fomos expulsos, eu, o Ribeiro, o Neto, o Ciro e o Sílvio. O Sílvio propôs uma esticada na batcaverna dele. O Ciro se trancou no quarto com a argentina, o Ciro sempre soube fazer as coisas. Brochei gloriosamente. Tomei um café preto na padaria e desabei no tapete do corredor. Fiquei vinte e uma horas fora do ar. Toda amizade masculina carrega um quê de veadagem. Talvez o Ciro. O Ciro, definitivamente. O Ciro passava o rodo. As mulheres só faltavam esfregar a xoxota na cara dele.

O Ciro conheceu a Ruth na festa do Juliano e botou na cabeça que ia casar na igreja, com bolo, madrinha, véu e grinalda. Ele ficou alucinado com a Ruth.

Ela era bonita mesmo, e inteligente, e sexy. O Ciro acreditou que o grande amor lhe abriria as portas da monogamia. Foi aí que ele começou a brigar com ela, briga feia, sem motivo. Por coisa nenhuma fazia as malas e saía batendo a porta. A Ruth enlouquecia, faltava ao emprego, emagrecia, e ele também. Dava uma semana, ele voltava e os dois fodiam como se tivessem acabado de se conhecer.

Funcionou por uns anos, ele voltou a ficar corado, até que as discussões viraram uma rotina mais destruidora do que o antigo ramerrame doméstico. Ele primeiro se engraçou com a Marta, ou foi a Cinira? Ele comeu uma das duas, ou as duas juntas, enfim, eu sei que, depois que a porteira abriu, o Ciro traçou metade do Rio de Janeiro em pouco menos de um ano.

A Ruth definhou. As mulheres cultivam a fantasia de que o verdadeiro amor é capaz de transformar os homens. O Ciro conseguiu ser pior que o Sílvio, porque o Sílvio nunca amou ninguém, mas o Ciro amava muito a Ruth. Começou no dia em que ela flagrou o Ciro na garçonnière do Sílvio com a mulher de um cliente dele.

A Ruth arrombou a porta aos gritos, a amante se escondeu no. Depois disso o Sílvio foi proibido pelo condomínio de emprestar o apartamento. A Ruth continuou gritando no corredor, enquanto o elevador descia. A Ruth ainda demorou uns vinte minutos para aparecer, possessa, parada na soleira, pronta para o quebra-pau. Só que o Ciro, gênio, um canalha mas gênio, era só carinho. E continuou riscando o nome das moças do caderninho.

Era uma base de três por semana, quatro, dependendo da carência que batia nele. Do Sílvio, eu esperava tudo, mas a frieza do Ciro com a Ruth foi chocante. Invejei o Ciro a vida inteira. Ele era muito bonito, daqueles caras que sabem jogar sinuca, futebol, peteca, pôquer, e ganham todas sem se esforçar.

Arrastou a argentina para o quarto, foi cavalheiro. Eu me casei por causa dele. Como era solteiro, fui ficando de fora dos almoços de domingo. Depois, as duas dedicaram anos a falar mal de nós dois. Pensei que ele estava emagrecendo daquele jeito por causa das noitadas e do excesso de tudo. Ele tinha acabado de fazer cinquenta anos. Pensei no dia em que ele conheceu a Ruth na festa do Juliano, no casal bonito que eles formavam.

O Ciro era o nosso Kennedy. Partiu seis meses depois desse encontro.

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Foram tantas, que eu só saía de casa com a roupa do corpo. Agora, carrego sempre um trocado para o assalto. Vai ver eram honestos.

Pretos, de short, chinelo e sem camisa, mas honestos. Bota a culpa no Monteiro Lobato. Eu tinha doze anos. Ela sobreviveu e eu dei para a Rita, achando que estava apresentando o céu para ela, mas a Rita amarrou a tromba porque queria uma Barbie. Arranjou um médio, com um radiologista de Uberaba.

O pai tinha uma clínica de imagem e o filho entrou para o ramo. Eles se conheceram numas férias dela em Ouro Preto. Meu genro é uma besta quadrada, do tipo que afirma que todo mal provém do stress. Sou acometido de um sono hipnótico toda vez que converso com ele. Pode ser em pé, sentado, no carro, numa festa horrorosa, dessas de fim de ano.

Mal sabem eles que só estou me protegendo da chatice do ignóbil do pai deles. Qualquer garoto de rua tem uma genética melhor que a de vocês. A Rita me visita no Rio duas vezes por ano, quer que eu mude para Uberaba, imagina. Como se eu fosse resistir a Uberaba, e ela a mim, e eu aos filhos dela. Quando ela vem, procuro ser gentil, o idiota do marido sempre a tiracolo. Eu marco deles virem à noite, na hora da insônia, para ver se durmo no embalo da cantilena. Poderoso sonífero, o papo do meu genro.

Mais cinquenta e sete passos e chego. Adoro contar os passos. E tem que agendar, e tem que trazer o protocolo, e guardar a via, e entrar na fila. Plano é igual INPS. O consultório do Mattos fica num edifício comercial aqui de Copacabana lotado de médicos senis. De vez em quando, um bate as botas. Que sirene é essa? É bombeiro, achei que era ambulância. Estou ficando surdo. Acho que meus óculos ficaram em casa. Que sirene é essa agora? É garagem. A garagem do meu prédio.

Nem contei direito, vim conversando. Com quem? Conversando com quem? Comigo mesmo, que é com quem eu gosto de conversar. Tem um carro subindo a rampa, vem no embalo, melhor acelerar as pernas. Eu estou na sua frente! Finalmente, reparou, vai frear, se atrapalhou. Como assim, se atrapalhou?

Quantos anos tem essa incapaz? Ela fez exame psicotécnico? Pode dirigir com essa idade? Achou o freio, estou ouvindo o cantar dos pneus. O carro continua andando; como assim, continua andando? Abre o olho, desgraçada, vem ver o que você aprontou.

Um pulo. Dobro a perna direita, estico a esquerda e me jogo pra frente. Anda, a lataria no tergal! Andar deixou de ser um ato inconsciente. Aciono os comandos. Eu jogo o meu esqueleto em cima do pedregulho e ele solta?

Quem foi o relapso que socou isso aqui? Cadê o empreiteiro? A queda. A minha queda, aquela que vai me fazer ter saudade do dia em que eu contava os passos no caminho do consultório do Mattos.

De uma hora para outra serei tia Suzel. O cotovelo esfola, o quadril sai do lugar e a cabeça se precipita no granito bruto do meio-fio e bate, como um badalo de sino de igreja. Preto, preto, preto, preto, preto, cadê branco? Cadê as ondas do mar?

O meu anjo da morte. Quem diria? Tem sangue saindo da minha cabeça. A perua do saiu do carro aparvalhada, o porteiro vem correndo. Estou bem, aqui. Foi bom lembrar dos amigos, nada é por acaso. Se houvesse outra vida, seria bom encontrar com eles, visitar o Ciro e o Sílvio no inferno, ia ser bom. Nem o budista reencarnacionista acha que vai voltar igual ao que foi. Vou estar na planta, na baba da lagarta que devora a planta, na mosca que lambe a baba da lagarta que devora a planta.

Estarei por ali. Foi de bom tamanho, eu estava cansado. A indiferença daqui me cai bem. Falei muito mal das mulheres, elas merecem. Desintegro no ar sobre Copacabana. Uma vez, li que a morte era o momento mais significativo da vida, e é mesmo. IRENE recebeu com frieza a notícia da morte do homem com quem vivera quinze anos de sua juventude. A filha telefonou aflita de Uberaba, estava no aeroporto, o pai jazia numa geladeira no IML. Era assim que se referia a ele, o Equívoco.

O cheiro ardia nas ventas, penetrando nos poros mesmo com as narinas tapadas. O assento rachado beliscou a coxa, obrigando-a a manter a perna sob vigília. O pesar rondava o rosto dos que, como ela, esperavam a vez. Absorta no limbo, assustou-se com um guincho agudo vindo do corredor. Levaram-na pra fora. Os urros na calçada a fizeram comparar o seu estado com o da gorda.

Cento e dezessete, chamaram. Depois de se apresentar no guichê, foi conduzida por um rapaz de jaleco encardido até o elevador; subiram em silêncio, evitando o olhar. Saltaram no terceiro andar. Uma comprida galeria de portas fechadas se estendia a perder de vista. O ar funcionava melhor ali dentro, mas o fedor se agravara. Numa daquelas gavetas escondia-se o fantasma, o seu fantasma. Teve vontade de vomitar.

Parado diante do segundo quadrado, no canto oposto à entrada, o rapaz fez sinal para que Irene se aproximasse. Sobre ela, o Equívoco. Nunca mais o vira. Aos poucos, a luz descortinou o nariz ainda mais adunco e as bochechas murchas. A papada e a calva unidas formavam uma moldura de pele enrijecida em volta do rosto.

O cinza-pedra das feições. O trilho se estendeu até o final, permitindo enxergar os ombros mirrados, os braços finos, a barriga de sempre e os pelos embranquecidos. Constrangeu-a vê-lo nu. Como era pequeno.

A boca arqueada se juntara ao sulco que partia das abas das narinas, criando um aspecto maligno que jamais tivera. A passividade cômica de antes cedera lugar a uma carranca tensa. Teria se tornado um homem mau? Os mortos nunca se parecem com os vivos, pensou. No casamento da filha? Enterro da Célia? De Neto? Na cama, com ele? Os quartos separados, o desconforto do par, a careca evidente, a raiva, a pança, o cansaço, a inércia e a brochura daquele homem. Do casamento, nenhum afeto sobreviveu.

Ele devia ter virado padre. O que a prendia a ele? Aquela garota? O décimo terceiro da empregada? Queria viver, trepar, amar, e nem sabia se ainda restava tempo para aprender a fazer tudo isso.

Casais bem mais realizados enfrentavam o seu fim. O Ciro e a Ruth. Ele é um zero, um nulo, um nada, como eu posso sofrer por um nada? Vera foi dura. A paciente ouviu ofendida. Aceitou o grupo. O pensamento vagara sem que se desse conta. Por que recordar daquela tarde? Foi objetiva. Sem mais, Irene Azevedo da Costa. Havia muito, para seu regozijo, o desquite, seguido de divórcio, extirpara o Soares de seu nome completo. Quando botou os pés na rua, o asfalto fervia. Uma da tarde. Queria voltar para a toca, tomar um banho e jogar a roupa e os sapatos no incinerador.

Ela havia acabado de limpar a craca do IML no longo banho de chuveiro. Enterre seu pai sem autopiedade. Ele tinha mais de oitenta anos! Eu tenho setenta e três anos, mocinha!

Eu é que devia te chantagear! O cortejo sairia às quatro. Era um Corsa velho, sem ar, com a marcha solta e um futum exasperante de odorizador de ambiente com sovaco de trabalhador. Quis saltar, inventar uma desculpa, mas teve pena do motorista. Mandou seguir. Mesmo respirando pela boca, o perfume azedo subia pelo paladar. Capela Achou que estivesse enganada,. Evitou revê-lo. Desviou para sentar-se nas cadeiras alinhadas em fila, encostadas na parede.

Irene contava os segundos que a separavam da ducha que tomaria ao chegar em casa. Ninguém mandou flores, notou. Devia ter trazido uma revista. Cadê a Rita? Irene riu da besteira. Depois, o silêncio apossou-se dela.

Da mudez, veio a lembrança. Os olhos de Irene marejaram. Foi um bom pai, pensou, e se enterneceu dele. Sentiu respeito e até saudade do homem deitado imóvel na sua frente. Foi assaltada pela viuvez. Humilde e respeitoso, um senhor abriu a porta. Ficou em pé, rezando, apoiado na madeira do esquife por largos minutos.

Quando terminou, fez o sinal da cruz e se virou para a sala. A falta de quórum o constrangeu. Ignorando a reserva de Irene, avançou até a cadeira vizinha à dela. Que coisa…, balbuciou o homem. Pois é, que coisa, respondeu Irene. Melhor interrompê-lo. O tempo voa. Irene cogitou gritar por ajuda, tinha horror a clichês. É pra frente que se anda. O porteiro era uma metralhadora giratória de frases feitas.

De uma hora pra outra, interrompeu o discurso. Deve ter cansado, pensou Irene, e deu graças por isso. Eu perdi minha mulher faz um mês. Ela… ela…, a voz embargou. Apesar das tentativas, foi impossível seguir adiante. Irene assistiu à pantomima de dor, ao vai e vem do pranto, aos espasmos e soluços, aos gestos desconexos. Ansiosa, olhou para a porta. Achei alguém para chorar o teu pai com você! E a senhora? Ah…, e se recompôs diante da objetividade da interlocutora.

Irene o perdoou pelo transtorno e o assunto acabou subitamente. Ficaram calados, olhando o infinito. A praticidade da ex-mulher do condômino ajudou-o a voltar aos eixos. Rita chegou quase uma hora depois do porteiro. Seu luto se transformara numa burocracia infernal de carimbos, vias e assinaturas. Um problema com a papelada fez com que o enterro do pai fosse adiado para o fim do dia. Irene controlou o desespero. Ficar ali ainda uma hora. Foi uma fatalidade.

Eu sei, concordava Rita. Irene ouvia entediada, tinha sono. Ainda faltavam uns bons palmos de azul para o entardecer. Sendo assim, Irene se voltou para ouvir o papo arrastado de Rita com o grilo falante. A luminosidade da janela dilatara as pupilas, o que fez com que seus olhos demorassem a se ajustar à pouca claridade do interior.

O teto empreteceu, Irene sentiu vertigem e se amparou no espaldar do assento. Recostou a cabeça na parede, teve calma e aguardou a cegueira passar. Rita e o porteiro haviam saído. Pedia socorro. Acordou com um sobressalto. Irene demorou a focar. Quatro e meia. Eu estou cansada, preciso ir. Voltou para o velório. Estava em pé, em frente à entrada, quando alguém entrou chutando a porta. Rita, Irene e o porteiro se voltaram surpresos.

Quem chamou este palhaço? Rita, foi você? Irene encarou-o indignada. Se a natureza fosse justa, a próxima seria ela. Preferia ser transferido para uma comunidade pequena, onde ainda houvesse fiéis. Via o quanto os seres urbanos eram hostis e descrentes da paz eterna. O entusiasmo de seminarista cedera espaço a um isolamento estéril, sem saída.

Sonhava em celebrar casamentos, batismos, tudo menos aquilo. O convívio excessivo com a morte o tornara insensível.

Padre Graça esperava resignado. Por isso, a perspectiva de enfrentar a sequência de velórios, no longo dia quente que se anunciava, lhe consumia os sentidos. Teria perdido a fé? A ideia de abandonar a batina o seduzia especialmente à noite, como um demônio insistente.

Estava cansado da cruzada contra o fogo amigo dos evangélicos e o inimigo dos ateus. Perdemos a luta. Apesar da tristeza, os parentes se mostraram resignados com a partida da matriarca. Católicos praticantes, se empenharam na missa. No final, agradeceu aos presentes e confessou: Entrei aqui sem esperança, saio com ela redobrada.

Novamente abalado pela quantidade de vezes em que Deus parecia dormir, padre Graça se deixou arrastar pelo pessimismo. Sou um coveiro de Deus, desabafou em voz baixa. Chegou a reduzir a marcha, certo da incapacidade de oferecer conforto. Preciso eu de consolo.

O engano residia na benevolência passiva do sacerdote. De que serve a misericórdia? O catolicismo deve eleger a firmeza como aliada. Sou um pastor, percebeu, mas me castro na pele de ovelha. Afaste de mim a bondade. Serei impiedoso, viril, romano, bélico e voraz.

O lado terrível do ser divino. O Antigo Testamento é meu guia. Padre Graça calou-se, parado, segurando a porta entreaberta, sem saber se aquele era o início ou o grand finale da missa. Padre Graça pousou os olhos numa velha dama elegante que o mirava assombrada.

Era Irene. A próxima. Graça arrependeu-se da bravata, ensaiou uma reverência acanhada e partiu sem fechar a porta. O dia estava encerrado. Sua carreira também. Eu tenho que ir, Rita! Cadê o Cézar? Mas, antes que soltasse o desabafo, os coveiros chegaram para dar a saída. Irene foi junto. Como era bom se sentir segura, e como foi duro perder as certezas. A adolescência destruiu-lhe a graça, a escola a inocência e os homens a delicadeza. O enterro, o velório, tudo veio inteiro e de uma vez.

Quanto tempo tinha ainda? Nem a filha precisava mais dela, a verdade é que mal se viam. Naquela noite, sonhou. Estava na praia. Era magro, forte e bonito. Sorriu para Irene. Que bom, Irene. E a beijou. Depois, ficaram assim, enlaçados. No dia seguinte, levou a filha até o aeroporto. Falou do pai como os filhos costumam falar após as exéquias, com cerimônia. Irene ouviu, era seu papel ouvir. Era a hora de Rita contabilizar seus feitos e de Irene dar valor à maturidade da filha.

Fingiu dar. Na despedida, abraçou a cria, lembrou dela neném, do futuro que projetara para ela, do choro, das aflições, das brigas, depois olhou para a mulher na sua frente. Rita havia crescido, aceitara uma existência modesta no interior, com um homem medíocre, mas sólido, fiel e presente. Possuía o bastante da passividade bovina do pai para se contentar com a vitória dos meninos no futebol, com a novela das nove e o Carnaval no clube.

Era feliz, bem mais do que Irene. E de Irene havia herdado o brio. Era submissa à vida doméstica, mas nunca ao marido. Conseguira a vitória onde Irene falhara, soubera controlar os impulsos e se satisfazer nas insatisfações. Rita cumpria com mestria as duas grandes obrigações do mundo moderno, ser jovem e ativa.

Ia à academia diariamente, comia direito e passava cremes à noite. Cuidava da contabilidade da clínica de exames do sogro.

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De qualquer maneira, era um presente melhor do que o que prometera a nefanda adolescência. A pele de Rita estourou de espinhas, os quadris alargaram e a barriga, engraçada aos quatro, preocupava aos doze. A mesma rotina ocorreu nos anos seguintes. O pior veio depois, quando passou a desdenhar dos folhetins e deixou de tomar banho. Botava Led Zeppelin para a vizinhança ouvir e respondia com raiva a qualquer pergunta que lhe fizessem.

Irene era a sua inimiga figadal. Pagou e passou. Tudo parecia perdido. Quinze dias em Ouro Preto na companhia de umas amigas igualmente bizarras. Rita perdeu a virgindade em Ouro Preto, tinha dezoito anos, e voltou outra. O namoro com o Cézar engatou e tudo nela amainou. Casou-se com vinte e um, depois de um longo noivado, e se mandou para Uberaba. Teve dois filhos homens e acabara de perder o pai. Vai morrer em paz, pensou Irene, é uma qualidade e tanto.

E abraçou a filha, dessa vez, com o merecido respeito. Ficaram a sós, ela e as suas frustrações. Ela apareceu bêbada. Chegou dizendo que precisava de dinheiro e se arrumou para sair. Tinha acabado de escurecer. Fez isso na minha frente e saiu andando pelo corredor. Eu achei demais aquilo, barrei a porta e mandei ela botar o dinheiro de volta.

A Rita me empurrou com força e tentou virar a chave, eu puxei ela pelo cabelo, a cabeça bateu na quina do batente. Ela sempre foi difícil. Você é difícil? O regozijo do grupo crescia a cada fracasso seu. A bolha. Logo ela, que apanhava em casa e tinha um filho drogado. E pra alguém que te coma direito. Havia a suspeita de que ele estivesse tendo um caso com Vera. A analista sofrera grandes transformações, emagrecera, passara a usar saia, salto alto e batom.

A mudança coincidira com a chegada de Paulo, que nunca falava dele e se divertia com o psicodrama dos outros. Paulo gostava de concluir os ataques endereçados a Irene com frases irônicas, sempre machistas, tiradas sobre a carência feminina e as glórias do pênis. Irene terminava as sessões massacrada, Vera mal intercedia. Era como se a doutora a houvesse abandonado nua, em meio à savana, para ser devorada por lagartos carnívoros.

Saiu do elevador escondendo o rosto inchado de choro. Resolveu caminhar. Como é feio Botafogo.

O Casamento

Era uma boa sogra, silenciosa, discreta, mas havia um mês dormia no escritório. Mas ele voltou. Só para morrer perto da gente, disse a sogra emocionada. Velho se emociona à toa. Agora, caminhava a esmo por Botafogo, sem lugar. Se pudesse, trocaria de pele, sairia de si, mudaria de nome, começaria tudo outra vez.

Até completar trinta, Irene achou que atravessava um período de teste, vendo o que acontecia, jogando por jogar, mas, depois que a filha deixou de ser bebê, percebeu que o futuro se define cedo. Rita era insegura, chata e gorda, além de pouco dotada intelectualmente.

A menina foi matriculada num colégio tradicional, católico e exigente. Os pequenos problemas de aprendizado tomaram proporções catastróficas.

Para evitar a repetência, a família achou por bem trocar de escola. Optaram por Piaget. Se houvesse boletim, teria levado um D. E mais, tornou-se agitada, rebelde, parou de comer sentada, pulava, desenhava peitos e perus compulsivamente.

A psicóloga explicou que a criança deveria fazer o dever caso se sentisse motivada. Esta aqui, disse, tirando uma folha de papel de uma pilha de desenhos. Ao lado, uma criatura espinhuda, semelhante a um ouriço rosado, exibia dois olhos raivosos e uma boca com dentes pontiagudos. Esforçava-se para separar a própria vaidade do destino da filha, mas era difícil.

Procriei mal, pensava. O nó na garganta obrigou Irene a parar. Ela sentou numa mureta, arfava de agonia, sentiu tontura e sufocamento. Para onde fugir? Cumpriu dois mil metros sem pensar em coisa nenhuma. Implorou para cuidar da burocracia depois do descarrego, foi atendida. Um homem atlético, aparentando cinquenta anos, bronzeado e atencioso, cuidou dos trâmites.

Era o Jairo. Sorriu, vermelha, e baixou os olhos. Tinha quinze anos. Passou a frequentar o clube todos os dias, sempre sem a carteira. Ele a conduzia até a catraca e dava ordem para que liberassem a entrada. Irene quase desfaleceu. Era macho e direto.

Pediu que ela o encontrasse num bar da Farme de Amoedo às seis. Encabulada, deu marcha a ré e quase levou a cancela. Os dois se encontraram num bar com varanda a uns três quarteirões do hotel. Jairo virou o primeiro uísque, sacou uma nota da carteira e pôs sobre a mesa com uma gorjeta gorda. Saíram abraçados, ela ansiosa, ele focado, ambos lascivos.

Entraram no , fundos. O lençol com perfume de desinfetante, o sabonetinho do banheiro apertado, nada se assemelhava à fantasia de Irene, mas era um passo, uma atitude, um começo. Antes de abrir a porta, deu um longo beijo na amante. Ele sabia ser homem. Os quartos separados encobriram o constrangimento. Viam-se raramente. O marido, assolado por problemas familiares, aliviou-se com o inesperado bom humor da mulher.

Se estava bom pra ela, estava bom pra ele. Dormiam em camas distintas havia dois anos. Destilando acidez, sentenciou que Irene tinha escolhido o pior entre eles. Ciro o mandou calar a boca, o que só aumentou a falastrice de Sílvio. Me espanta você, Irene, ter dito sim. Você merecia coisa melhor. Ela vestiu a camisola e se deitou furiosa. Irene explodiu. Perguntou se ele desconfiava do que se passava com ela. Da vergonha que tinha dele.

Da falta que sentia de tudo. A resposta a enfureceu ainda mais. Cursaram letras juntas. Era um sujeito sem sabor, crítico, cobrador.

Nem eu me suportava. Embaraçado com os surpreendentes pensamentos que ouvira, o chefe da policia olhou rapidamente para mim e disse, mais constrangido ainda, como se fosse uma criança recebendo orientações: — Parabéns, senhor. Todo mundo tem documentos na sociedade! Quem é o senhor? Nesse momento, franzi a testa. Pressenti que o policial entraria mais uma vez numa fria. O personagem que agitara meu cérebro lhe retrucou: — Respondo-lhe se me responder primeiro. Com que autoridade o senhor quer penetrar nos espaços mais íntimos do meu ser?

O policial aceitou o desafio. Elevou o tom de voz. Quero saber qual é sua essência. Diminuindo o tom de voz, novamente o mestre perguntou: — Qual é seu grande sonho? Bom, eu, eu Pude olhar nos olhos daquele que me resgatara e sentir um pouco o que ele pensava.

Enquanto eu o julgava, de repente comecei a me ver nele. E o que vi me incomodou. Viva esse sonho! O chefe da polícia ficou pasmado.

Fora treinado para lidar com marginais, para prendê-los, e nunca ouvira falar dos ladrões que invadem a psique. Ganhava medalhas de honra ao mérito, mas estava morrendo como ser humano. Quando o ouvi derrotar a arrogância do policial, deu-me uma vontade imensa de perguntar se ele realmente tinha um filho ou se o mestre havia chutado. Vendo o chefe da polícia completamente perdido, procurou constranger o forasteiro. Certamente pensava que suas idéias puxariam o tapete dele, revelariam sua insegurança.

Vendo-o hesitar, continuou a indagar-lhe: — Qual a linha terapêutica que você segue? O homem que me cativara me surpreendeu com essa pergunta. Mas o psiquiatra, que também era psicoterapeuta, disse, assoberbado: — Sou freudiano. Cada doença pertence a um doente. Cada doente tem uma mente. Cada mente é um universo infinito.

Entendi o recado que passara para o psiquiatra, pois senti na própria pele o que queria dizer. Quando o psiquiatra me abordou, usou técnicas e interpretações. Eu as rechacei imediatamente. Eu estava resistente, precisava primeiro do ser humano psiquiatra e depois do profissional psiquiatra. Como ele me abordara diretamente, eu o senti como invasor, me recolhi dentro de mim, entrei num cofre.

O vendedor de sonhos fez o caminho inverso. Começou pelo sanduíche: invadiu minha psique com penetrantes questionamentos, 49 como num nutriente que invade a corrente sangüínea e estimula as células.

No segundo momento, tratou do ato suicida. Quebrou a espinha-dorsal da minha autosuficiência. Fiquei mordido de raiva ao enxergar isso, mas me lembrei que no templo da universidade havia cometido esse crime por diversas vezes.

Você é um vendedor de sonhos. O psiquiatra olhou para o chefe da polícia e deixou ganhar sonoridade um pensamento, sem que, obviamente, o vendedor de sonhos e eu ouvíssemos. Mas, para a minha surpresa, o homem que eu acompanhava voltou-se para eles e repetiu o pensamento simultaneamente com o psiquiatra.

Comentou com o psiquiatra: 50 — Uns têm uma loucura visível e outros, oculta. Que tipo de loucura você tem? Eu sou normal! Enquanto isso, o vendedor de sonhos admitiu: — Pois a minha é visível. Eu, pensativo; o vendedor de sonhos, tranqüilo. Assoviava com um olhar fixo, concentrado em si mesmo. Só agora me dava conta de que eram belos, mas para mim eram horríveis.

Por instantes, tive raiva de mim mesmo. A imprensa estava presente e queria informações. Ninguém sabia o que realmente acontecera no alto do edifício, o rico embate que tive com esse misterioso homem ficou alojado somente na minha mente.

Fomos tratados como celebridades. Tornei-me famoso pelos motivos que menos queria. Ao longo da caminhada, ele nos questionava. Quem é mais complexo em sua psique? Mas o forasteiro era mais excêntrico do que eu imaginava. Sem dar explicações, pediu que todos fizessem uma grande roda, o que foi difícil, pois as pessoas se apinhavam.

E para a surpresa de todos, entrou no centro dela e começou a dançar uma dança irlandesa. Ele se agachava, jogando os pés para o alto, e se levantava, 53 pouco a pouco, fazendo o mesmo movimento. Ao mesmo tempo emitia sons eufóricos. Maldito preconceito. Pouco tempo antes eu quase me matara, mas os preconceitos ainda estavam vivíssimos.

Ninguém entendeu muito bem as reações do vendedor de sonhos, muito menos eu, mas algumas pessoas começaram a participar. A alegria é contagiante. Haviam sido contagiados pela sua euforia despretensiosa. A roda se abriu mais. Os que margeavam a roda também mergulharam no clima, e começaram a bater palmas no ritmo da dança.

Mas muitos ficaram mais distantes, dentre os quais se destacavam alguns executivos muito bem-trajados. Preferiram ocultar sua loucura, como eu. Dentro do círculo dos que dançavam sempre entrava e saía uma pessoa, revelando seu desempenho.

E saía sob aplausos. Enquanto eu estava de fora, tudo bem, me protegia, mas de repente o vendedor de sonhos pegou nos meus braços e, exultante, colocou-me no centro do círculo. Fiquei de pé. As pessoas 54 continuavam dançando ao meu redor e me incentivando, mas eu estava paralisado. Torcia para que nenhum professor ou aluno da minha universidade estivesse presente. Que loucura! Descobri que sou mais doente do que imaginava. Tudo certo, tudo fétido.

Subitamente, mais uma surpresa me envolveu. Enfiou seu braço esquerdo no meu direito e me empurrou para dançar. Vendo-me engessado no meio da bagunça, ele parou de dançar, olhou para mim, me deu um beijo na face esquerda e balbuciou: — Se solta, cara! O chefe dos E. Esta festa é pra você!

Fui alvejado no centro do meu orgulho. Nesse momento tive um grande insight. Só depois que o cambaleante alcoólatra me beijou, percebi que estava festejando por mim. O bêbado estava mais sóbrio que eu. Estava embasbacado, nunca pensei que fosse possível que um estranho desse tanta importância para um desconhecido. O que mais poderia querer?

Mandei às favas meu formalismo, joguei para o alto meu status de intelectual. Na universidade, havia esquecido que os grandes filósofos discorreram sobre o sentido da vida, a política do prazer e a arte do belo. Considerava tais pensamentos filosóficos desprezíveis frases de auto-ajuda. Era preconceituoso. Percebi, agora, que precisava bebe-los. Foi a primeira vez em que dancei sem ter uísque na cabeça. Precisava de uma vírgula para continuar respirando. Homens de gravata dançavam, bem como mulheres de longo e de minissaia.

Crianças e adolescentes também caíram na gandaia. Nesse momento, apareceu uma velhinha dançando feliz da vida com sua bengala. Era a senhora em cima da qual Bartolomeu caíra. Seu nome era Jurema. Tinha oitenta anos bem vividos. Quem imaginasse que ela estava capengando pelos ditosos anos se enganara. Estava em melhor forma que eu. Sabia 56 dançar como raras pessoas. O vendedor de sonhos se encantou com ela.

Dançaram juntos. Eu esfregava os olhos para ver se tudo era real. De repente, ela se desfez dos braços do mestre e topou com Bartolomeu no centro da roda. Deu-lhe uma bengalada na cabeça, mas com suavidade, e novamente lhe disse: — Seu tarado. Morri de ri. Ela fez o que eu gostaria de ter feito quando ele me deu um ósculo malcheiroso no rosto. O mestre voltou-se para a velhinha e, em vez de repreendêla, gritou: — Você é linda!

A velhinha recebeu uma carga de adrenalina que a fez se sentir com vinte anos. Por instantes achei que o vendedor de sonhos estava sendo falso.

O que é ser bonita? Enquanto ponderava, o alcoólatra, esperto que era, vendo que o elogio funcionava, chegou perto da sua agressora e bradou exageros: — Linda! Pensando estar abafando, recebeu outra bengalada da velhota.

Conquistador barato! Cachorro compulsivo! Bartolomeu enfiou o rabo entre as pernas. Mas em seguida percebeu que ela estava brincando. Animadíssima, tomou o bêbado pelos braços e saiu dançando com ele, feliz da vida. Fiquei impressionado; conhecia o poder da crítica, mas desconhecia o poder do elogio. Estava confuso. Nunca vira tanta maluquice num só dia.

Em suas aulas ao ar livre, constatei que suas reações e seu silêncio penetravam mais do que as técnicas multimídia. Intuitivamente sabíamos que ele guardava grandes segredos.

Transformou-se num especialista em fazer da vida uma festa, até quando havia motivos para se contorcer de raiva ou se autopunir. Eu detestava pessoas tolas, que davam respostas superficiais, mas no fundo era uma pessoa saturada de tolices. Tinha muito que aprender para dar risada de mim mesmo. Tinha muito que aprender sobre a arte de desanuviar a cabeça, uma arte desconhecida no templo acadêmico. Entulhava meus alunos de crítica e mais crítica social, mas jamais ensinara algum deles a curtir a vida.

A minha vida era uma droga. Tinha orgulho da minha ética e honestidade, mas começava a descobrir que era antiético e desonesto comigo mesmo. Eufóricas, as pessoas pouco a pouco se aquietaram. As pessoas ficaram com os olhos regalados. Elas haviam acabado de dançar numa pista improvisada, mas agora o promotor da festa introduzia uma outra pista e as questionava se eram humanas ou divinas.

Viviam vazios, entediados, ansiosos, inundados de tranqüilizantes. Eram deuses que morriam um pouco a cada momento, eram deuses que negavam seus conflitos. Momentos depois, para minha cumprimentando pessoa por pessoa, indagando: surpresa, ele saiu — Quem é você? Qual é o seu grande sonho?

Muitos ficavam constrangidos no primeiro momento.

Como posso sonhar? Tenho dores em todo o corpo. Fiquei impressionado com as respostas. A platéia e os atores viviam o mesmo drama. Uma jovem obesa, de cento e trinta quilos e um metro e oitenta de altura, ficou comovida com essas palavras.

Sentia-se programada para ser rejeitada e infeliz. O fantasma do conformismo a dominava. Era pessimista e excessivamente crítica consigo mesma. Sempre se diminuía perante outras mulheres. Sua auto-estima fora assassinada na sua infância, como a minha. Bartolomeu ouviu suas palavras. Se você procura um príncipe, o encontrou. Quer namorar comigo? O mestre olhou nos olhos dela. Condoído, respondeu-lhe: — É possível encontrar um grande amor. Elas esperavam um milagre, mas o vendedor de sonhos era um vendedor de idéias, um mercador de conhecimento.

O conhecimento era melhor do que o ouro e a prata, encantava mais que diamantes e pérolas. Sonhos sem projetos produzem pessoas frustradas, servas do sistema. Fiquei reflexivo. Ninguém planeja ter amigos, ninguém planeja ser tolerante, superar fobias, ter um grande amor. Servos ou líderes? Autômatos ou pensadores? Eu era servo do meu pessimismo e da minha pseudo-independência. A herança se tornava um laço para uma vida dissoluta e superficial.

Sonhei em viver uma vida melhor que a que meu pai viveu, mas reproduzi o que mais detestava nele. Esqueci que os grandes pensadores eram malucos que assumiam os riscos. Creio que eu era uma dessas aves predadoras. Alguns dos meus colegas lutavam contra esse formalismo, mas eu os freava.

Os formais recebem diplomas e aplausos, os desvairados produzem as idéias que eles utilizam. Parecia que estava realmente prestes a cometer um assassinato. Ele continuou: — O que merece uma mulher que trai o marido? Em vez de abrandar a ira do agressor, parece que colocou mais combustível: — Você também é um traidor? Você nunca traiu ou se traiu? O agressor ficou mudo, apenas meneou a cabeça, confirmando que também era traidor. Diariamente se traía com milhares de pensamentos mórbidos.

Sua agressividade era a ponta do iceberg de um traidor. Quando abaixou a guarda, o mestre o bombardeou mais intensamente: — Por acaso sua esposa é sua propriedade? O homem saiu de cena completamente atordoado.

Vodca russa! Vivia duro, e estava em estado de êxtase ao pensar nesse incomum banho. Mas fiquei surpreso com meu sarcasmo. Nunca imaginei que na minha mente houvesse uni prazer sublimado pela desgraça alheia. Antes que ele desse alguma resposta, dona Jurema apareceu e ameaçou dar outra bengalada em Bartolomeu. Ela também ouviu qual era seu grande sonho e ficou indignada.

Alcoólatra inveterado! Estrume social! Emendou: — Obrigado pelos elogios. Mas serve também um barril de cachaça brasileira ou de tequila mexicana. O cara era incorrigível. Mas para meu espanto, ele elogiou a sinceridade do moribundo: — Muito bem!

Parabéns pela sua honestidade. Tentei mexer nos ouvidos para ver se estava ouvindo direito. E teve a ousadia de dizer: — Preservo a natureza. Esse é o cara. Posso dar um passeio na sua aeronave, chefinho? O mestre olhou para mim. Mas, para meu assombro, disse algo que quase me fez desmaiar. Tocou o ombro esquerdo do moribundo e disselhe com uma voz firme: — Venha e siga-me!

Fiquei atônito. Tentava mexer com a cabeça para ver se tinha entendido direito o que havia ouvido. É vodca das bravas? Fiquei constrangido com a santa irreverência do alcoólatra.

Mas o vendedor de sonhos achou graça, sorriu. Conseguia relaxar em situações tensas. Meus neurônios entraram em estado de choque. Pensei em debandar. Seguir uma pessoa excêntrica, um estranho no ninho social ainda vai, mas seguir lado a lado de um bêbado gozador era demais.

Algumas pessoas tiravam fotos. Alguns jornalistas estavam presentes e tomavam nota dos eventos. Três quadras à frente, os conflitos começaram. Para onde vamos? Estava feliz em fazer parte do pequeno bando; eu, apreensivo. Olhava para cima e tentava me relaxar.

Imaginava que iríamos para os seus humildes aposentos. Pelas roupas, parecia ser muito pobre, mas devia ter uma casa ou apartamento alugado. Até porque dormir no mesmo quarto com esse bêbado seria uma afronta ao bom senso. Talvez, talvez, talvez, pensava, mas nenhuma certeza havia. Bartolomeu embarcou nas saudações. A grande maioria das pessoas respondia com um sorriso.

Eu ficava imaginando: de onde o vendedor de sonhos conhece tantas pessoas? Ele era assim. Saudava-os pelo prazer de saudar. Eu respirei. Chegamos, pensei comigo. Para meu alívio, confirmou que havíamos chegado.

Olhei para o lado esquerdo. Vi um conjunto de casas populares iguais, pintadas de cor branca, com uma pequeníssima varanda.

Mas o homem que me fez o chamado felizmente olhou para o lado direito da rua. Parece que havia oito apartamentos por andar.

Parecia um pombal. Aparentemente os apartamentos tinham menos espaço do que as casas populares. Estava apinhado de gente. Tentando disfarçar minha ansiedade, perguntei gentilmente: — Em que andar é seu apartamento? Meu apartamento é o mundo — disse com tranqüilidade. Assustado, indaguei: — Como assim, mestre? Fiquei paralisado. Ele citou a famosa frase de Cristo. Ou poderia vir a ter? Mas ele parece intelectualmente superdotado, inteligente. Quem é esse homem?

Onde estou enfiando minha vida? Só procuro entendê-lo. Sou o menor dos que tentam entendê-lo — reagiu calmamente. Aliviei-me por alguns instantes. Gritei: — Cale-se, Boca de Lixo! Boquinha de Mel. O mestre dirigiu-se a mim e corrigiu-me com delicadeza. Expunha nossa nudez sem punir. Se Bartolomeu acha que sou o chefe dos E.

Seja generoso consigo mesmo! Quem cobra muito de si mesmo é um carrasco dos outros. A desgraça dos outros me excitava mais do que seus sucessos. Mas onde estava o apartamento e a casa em que iríamos nos acomodar? Tive vertigens. Comecei a ter saudade do Edifício San Pablo. Havia uns colchonetes velhos e rasgados. Tínhamos que tomar no bico. Comecei a gostar do sujeito. Bartolomeu começara a cair na realidade. Dormia em lugares melhores.

Dormia em edículas de amigos, no fundo de bares e até em albergues municipais, mas debaixo de um viaduto era a primeira vez. E teremos uma longa noite pela frente. Após dar umas poucas mordidas nas bolachas, resolvi deitar.

Agora você faz parte de um deles. Vai ser bom para sua carreira acadêmica. Só sabia que saíra do microcosmo da sala de aula para um cosmo do submundo social, um ambiente completamente desconhecido. Era um sociólogo teórico. Momentos depois, procurei outra técnica. Comecei a recordar as lições que aprendera, a rememorar cada experiência. Tentava pensar em tudo o que acontecera horas antes.

Pensei que todas as pessoas deveriam sair por aí sem rumo, 74 pelo menos por um dia, para poder achar o elo perdido em seu interior. Pensar desse modo me relaxou. Relaxei; o sono começou a vir. Entendi que quem determina a maciez da cama é o nível de ansiedade da nossa mente. Só dorme bem quem aprende primeiramente a repousar dentro de si. Estava começando a filosofar como o mestre. O colchonete se tornou o melhor de todos os colchões. Estava frio e ventava muito. De repente, acordei com gritos desesperados.

Vai cair! Estava ofegante e assustadíssimo. Jamais senti tanto medo. Levantei num sobressalto, querendo afastar-me do grande viaduto. O mestre segurou-me pelo braço e me pediu calma. Podemos morrer! O instinto de vida pulsava em mim, embora poucas horas antes eu quisesse findar a vida. Olhei para Bartolomeu, e ele continuava num clima de terror. Estava tendo delirium tremens. Depois do desespero pela queda da ponte, ele começou a ter outras alucinações. Viu aranhas e ratos gigantes, do tamanho de automóveis, caminhando pelo teto e ameaçando comê-lo.

Seu corpo estava quente, parecia febril. Em plena era digital, os sentimentos primitivos continuavam vivos. Gritava, agoniado: — Chefinho, me ajude! Mas em seguida ele se levantava e tinha novas crises. Teve um momento em que se levantou e saiu correndo pelas ruas. Havia cinco milhões de alcoólatras no país. Pareciam bêbados felizes. Estava preocupado com sua integridade.

E assim o fizemos. Era um mundo estranho à academia. Imaginei o esforço tremendo que o vendedor de sonhos fizera para me resgatar. Ajudar Bartolomeu era a minha primeira experiência de contribuir despretensiosamente para o benefício de alguém.

Uma tarefa difícil para um intelectual egocêntrico. Os hospitais gerais estavam despreparados para lidar com acidentes da mente humana. Sabiam lidar com o corpo, mas desconheciam ou negavam o mundo intangível da psique. Eram uma casta de engessados.

Bartolomeu estava bem melhor. Teve alta. Sua memória estava turva. Tentei explicar o incompreensível. Quando iniciei minha fala, ele saiu de cena. Falei sobre o vendedor de sonhos, como o encontrara, como me ajudou, como me chamou, como o encontramos no sopé do edifício, a dança, a pergunta sobre o grande sonho, como o chamou, o viaduto, o terror noturno, enfim, tudo. A experiência sociológica ganhava corpo. Melhor que os professores e meus alunos pensassem que eu morrera ou mudara de país.

Bartolomeu assoviava despreocupadamente. Nesse caso era um antônimo do seu comportamento. O sujeito era um velhaco. Tinha vinte e oito anos, cabelos loiros com franja, nariz comprido e achatado, traços orientais. Mas agora uma câmera o filmara com a boca na botija. Foi preso. Na delegacia, pediu para chamar um advogado. Só me segue O advogado ficou sem entender o que ele 80 aprontaria. O delegado perguntou o nome do réu. O delegado bronqueou com ele e indagou-lhe novamente o nome.

Ele repetiu o gesto. Coloco-o em cana por desacato à autoridade. Foram dez perguntas insistentes sem respostas. O delegado xingou, bateu na mesa, ameaçou, mas nada. O sujeito era um artista, no pior sentido da palavra. Esse sujeito é maluco! Dimas repetiu o mesmo gesto.

Almas gêmeas

O advogado se irritou. Nada dissuadia o malandro. O advogado o ameaçou de todas as formas. Mas como podia fazê-lo? Ele afirmara ao delegado que seu cliente era um doente mental; se desmentisse isso poderia se complicar. Mas pensei que talvez quisesse vender o sonho da honestidade para ele. Ele atravessou a calçada e se aproximou do sujeito. Nós, apreensivos, o seguimos.

Temíamos que o malandro estivesse armado. Dimas o notou e ficou intrigado com sua presença e com o olhar furtivo. Fogem da miséria, mas ela sempre os alcança. O vigarista levou um susto. Vivia na dureza. Detestava a miséria, suplicava que ela partisse, mas, como companheira fiel, ela insistia em ficar. Quem é esse sujeito que furta minha paz? As suas idéias eram incisivas, determinantes, sedutoras.

O sujeito olhou de cima a baixo o homem que o perturbara, analisou suas vestes, viu seus bolsos vazios, deu uma fungada no nariz. Truncando as palavras, indagou: — O que E saiu sem dar maiores explicações. O malandro nos seguiu.

Seguiu-o inicialmente mais por curiosidade. Ele deixou malucos alguns dos seus terapeutas, pois tiveram que se tratar depois que começaram a atendê-lo. Descobriu que o orgulho era minha especialidade. O ignorante usou errado o termo da teoria de Freud. Vendo o chamamento do trapaceiro, me chamou de lado e cochichou aos meus ouvidos: — Superego, agüentar você é difícil, mas esse vigarista é impossível.

O novo membro da família poderia ser um perigo. Jamais imaginei estar associado a um criminoso, um embusteiro. Estou fora! Pensei em debandar pela segunda vez da experiência sociológica. Mas subitamente um filme passou novamente pela minha mente. Recordei que estava perdido e fui achado.

Olhei para o calmo semblante do mestre e resolvi resistir um pouco mais. A curiosidade para ver no que ia dar essa experiência me animava. Certamente poderia ser tema de muitas teses. O novo discípulo tinha voz mansa, mas era um perito em dar tombo nos outros e levar vantagem em tudo.

Sabia ludibriar 84 as pessoas, vender bilhetes de loteria falsamente premiados. O problema é que todo esperto tem excesso de autoconfiança. Achava que nunca cairia numa armadilha, até que encontrou alguém mais esperto do que ele. Sentamos numa praça para descansar. Tarefa difícil. O sujeito parecia que tinha baixa escolaridade. Mas era um bom momento para excluí-lo do grupo.

Bartolomeu dava um tom superlativo a tudo que acontecera. Acho que ele é de outro mundo. Ele hipnotiza as pessoas. Ele nos chamou para incendiar a humanidade com sonhos. Bartolomeu, bêbado, tinha alucinações com monstros; sóbrio, tinha delírios de grandeza. Mas infelizmente Dimas gostava de ouvi-lo, falavam a mesma linguagem.

Os desajustados sabem se comunicar. Assim, o bando de malucos se construía. Comprei o jornal com as poucas moedas que tinha no bolso.

Fiquei abalado, perplexo. Agora estava na boca do povo. A reportagem descrevia minha tentativa de suicídio e meu estranho resgate por um estranho do qual ninguém sabia o nome. Dimas e Bartolomeu viram um intelectual descontrolado e desconsolado ao ler o jornal. Minha imagem social era meticulosamente preservada. Tornei-me uma celebridade às avessas.

Ferido, queria sair pegando todos os jornais e queimando. Queria processar o jornalista por essa reportagem caluniosa. A matéria me diminuía, dizia que eu era um depressivo que procurava sensacionalismo. Também dizia que o psiquiatra que estava no topo do edifício classificara o homem que me resgatou como um psicótico perigoso, que poderia colocar em risco a sociedade.

O mestre se sentou num banco ao lado, junto com seus outros seguidores. Respeitando minha dor, apenas me observava. Minha mente fugia ao meu controle. Imaginei todos os meus colegas professores e alunos lendo a matéria. Eu era o chefe de um departamento de sociologia, e nunca abaixara a cabeça para nenhum professor ou aluno. Sempre fora ótimo em cultivar inimigos e péssimo em fazer amigos.

Sem perceber, acabei por vender o sonho que eles mais desejavam, o sonho de pisotear minha imagem. Abatido, concluí que estava acabado para o mundo acadêmico, estava terminado para a universidade. Nunca mais teria o mesmo silêncio quando tecesse crítica social nem o respeito quando debatesse idéias ou corrigisse alguém. Para o jornalista, era mais uma matéria, para mim era minha história, era tudo o que tenho e sou, ainda que fosse uma história doente, complicada, saturada de sobressaltos.

Poucos minutos mudam uma história. Como retornar às minhas atividades?

Se retornar, nunca mais serei o mesmo para os outros. E, ainda por cima, chama para esse projeto pessoas que jamais passariam pelo filtro da minha inteligência, parceiros que eu jamais escolheria para fazer qualquer tarefa juntos. Estava indignado. Olhei de relance para o mestre e descobri que a vírgula que ele me vendera estava funcionando, embora segui-lo fosse um preço muito alto.

Eu estava vivo. Quase me arrebentara saltando do topo do edifício. Queria ser simples, viver suavemente, despreocupar-me com a paranóia da 88 imagem social, mas era um ser humano pesado, rígido, controlado pela ansiedade. Meu autoritarismo sempre ficara escondido debaixo do manto da minha intelectualidade. Quando refletia sobre isso, senti a presença do mestre ao meu lado. Ele parecia ter entrado no torvelinho das minhas idéias. Parecia ler o invisível.

Tema seus próprios pensamentos, pois somente eles podem penetrar em sua essência e destruí-la. Somos o que somos. Tem liberdade de partir. Tinha a oportunidade de virar as costas e ir para qualquer lugar do mundo. Eu, cair fora? Sempre fui teimoso, obstinado, lutei pelo que queria.

Nesse momento, minha mente começou a ser invadida por um questionamento sobre o qual jamais havia refletido. Comecei a recordar o estudo sociológico que havia sobre as relações entre Jesus e seus discípulos, que muito influenciou a sociedade ocidental.

Comecei a entender fenômenos psíquicos e sociais que nunca havia analisado. Seguiram no escuro um homem sem poder político notório e sem identidade visível. Que experiência arriscada! Que conflitos! Que vexames! Que perturbações viveram! Perderam tudo, por fim perderam o homem que os ensinou a amar crucificado numa trave de madeira. Morreu sem heroísmo, morreu em silêncio, encerrou seu fôlego amando, faleceu perdoando. Após sua morte, o grupo poderia ter se dissipado, mas uma força incompreensível os invadiu.

Tornaram-se mais fortes depois do caos. Difundiram para o mundo a mensagem que tinham ouvido. Amaram desconhecidos e se entregaram por eles. As bases dos direitos humanos e dos valores sociais foram estabelecidas.

Séculos se passaram, e tudo se tornou comum. As igrejas se tornaram uma fonte excelente de conformismo. Que coragem para chamar e que coragem para seguir o chamado! Mas você é importante no time. Respirei profundamente. Pensei no homem que evitara meu suicídio e me levara a dormir debaixo do viaduto. Mas nos magnetiza.

Vive a 91 arte da solidariedade, sonha em abrir a mente das pessoas, em combater o vírus do sistema, em confrontar o egocentrismo. Somos pequenos demais para fazer alguma coisa contra o poderoso sistema. Poderemos ser presos, feridos e mais caluniados ainda.

Enquanto o circo pegava fogo na minha mente, o mestre ainda estava no picadeiro realizando belíssimas perfórmances. O choro das nuvens que deveriam promover a vida dessa vez anunciou a morte. Devastavam tudo o que estava à frente.

Os animais menores seguiam seus rastros. Veja se enxerga a sua pequenez! Mas, atenta, procurava alguém que pudesse resgatar. E bateu em retirada, carregando o filhote no bico. Horas depois, encontrou as hienas embaixo de uma sombra. Sejam dignos das suas asas. É na insignificância que se conquistam os grandes significados, é na pequenez que se realizam os grandes atos.

Reclamavam da mesma maneira. Irritavam-se do mesmo modo. Xingavam com as mesmas palavras. Cumprimentavam os íntimos da mesma forma. Davam as mesmas respostas para os mesmos problemas.

Expressavam o mesmo humor em casa e no trabalho. Tinham as mesmas reações diante das mesmas circunstâncias. Davam presentes nas mesmas datas. Elas raramente surpreendiam. Raramente davam presentes em dias inesperados. Raramente reagiam de modo distinto em situações tensas. Raramente libertavam o intelecto para enxergar os fenômenos sociais por outros ângulos. Sempre fui previsível ao me relacionar com meus alunos, e só descobri isso quando comecei a andar com meu mestre. Dava aula no mesmo tom de voz.

Fazia críticas e dava broncas da mesma maneira. O vendedor de idéias vendia continuamente o sonho do encantamento. Mas, no fundo, ele sabia muito bem o que queria e aonde queria chegar.

Cada dia era um canteiro de surpresas, umas agradabilíssimas, outras causticantes. Permita-me captar seus sentimentos. Obrigado por mais um show nessa surpreendente existência. Boca de Mel, que era vidrado em shows country, disse: — Que show nós iremos ver, chefinho? O vendedor de sonhos reagiu, deslumbrado: 95 — Show? O mestre saiu, e começamos a seguir seus passos. Subimos uma ladeira. Andamos três quadras, viramos à direita, depois quatro quadras à esquerda.

E continuamos a caminhar. Reduzimos os passos, e ele avançou uns seis metros à nossa frente. Dimas olhou para mim e disse, apreensivo: — Esse lugar é uma fria.

Reagindo, confirmei: — Concordo. Era um velório. Mas o irreverente Boquinha de Mel, procurando manter a pose, me provocou, dizendo: 96 — Superego, desce do céu. Vamos pró velório. Tive vontade de lhe dar um sopapo. O ambiente estava saturado de dor.

Era um lugar fisicamente belo para conter tanta tristeza. O medo de um escândalo num lugar que primava pelo silêncio desacelerou ainda mais nossos passos. Distanciamo-nos do mestre. Ou as redações dos jornais?